Dois dias depois de conquistar o título mundial de triatlo, a Red Bull abriu as portas para uma conversa com Vasco Vilaça sobre a corrida que o levou ao topo e o que vem a seguir. Uma coisa é certa: por trás da medalha de ouro, pouco mudou. A simplicidade mantém-se, tal como o gosto de passar despercebido. Dois dias depois de conquistar o título mundial de triatlo, a Red Bull abriu as portas para uma conversa com Vasco Vilaça sobre a corrida que o levou ao topo e o que vem a seguir. Uma coisa é certa: por trás da medalha de ouro, pouco mudou. A simplicidade mantém-se, tal como o gosto de passar despercebido.
No passado dia 27 de setembro, um rapaz de 26 anos, natural da Amadora, colocou Portugal no topo do triatlo mundial. De seu nome Vasco Vilaça, chegou a Pontevedra como líder da classificação e saiu de lá como campeão do mundo. Tornou-se o primeiro português a conquistar o título mundial masculino de elite, quase 20 anos depois de Vanessa Fernandes ter feito história no feminino. Dois dias depois, porém, Vasco ainda fala da corrida como quem está a tentar perceber tudo o que aconteceu.
Recorda os 22 segundos de atraso na água, o pontão que cedeu, a escolha dos pneus, o peso das sapatilhas, o duelo com Matthew Hauser e o momento em que percebeu que o título já não lhe escapava. No entanto, quando se ouve o triatleta a falar, percebe-se rapidamente que a história não começou em Pontevedra.
Aos oitos anos inspirado por essa tal de Vanessa Fernandes iniciou o percurso no triatlo, já depois de ter passado pelo duatlo. Na altura, ficava agarrado à televisão a vê-la competir, sem ter ainda a ideia que, anos mais tarde, seria ele naquele lugar. Cresceu acompanhado por uma geração de atletas com quem partilhou muito mais do que provas. Vieram as amizades, as brincadeiras, as viagens, os treinos e uma forma de crescer dentro do desporto que ainda hoje faz parte da maneira como olha para a carreira. Depois do título de vice-campeão mundial em 2022 e do bronze em 2025, este ano conheceu o lugar mais alto do pódio.
Mas com isso pouco parece ter mudado.
Continua a ser o mesmo rapaz discreto, que se rege pela simplicidade. Modéstia é a palavra que melhor encontro para o descrever.
Mesmo depois de conquistar o título mundial, não tem pressa em assumir-se como o melhor do mundo. «O que é que é ser o melhor?
É ser o melhor num dia?», questiona Vasco. «Porque se vamos ver num dia, por exemplo, nesta última corrida, nesse dia foi o Matt Houser que ganhou. Naquelas duas horas ele foi o melhor», atira. Para Vasco, a diferença está na consistência. É isso que, ao longo de uma época, permite perceber quem esteve verdadeiramente na frente. «O que eu gosto no nosso campeonato é o facto de ser uma série de provas.
É que, realmente, em momentos únicos, qualquer pessoa pode ganhar. Há sempre exceções e tudo pode acontecer.»
«Mas quanto mais provas juntamos durante um ano, mais vêm ao de cima realmente os melhores, aqueles que consistentemente estão na frente. E diria que, o que o campeonato do mundo revelou este ano, é que, consistentemente, durante o ano inteiro, independentemente das condições, independentemente de quem estava lá, eu é que fui sempre o melhor».
Vasco reconhece, assim, que foi o melhor ao longo desta época, mas não confunde esse facto com ser, necessariamente, o melhor do mundo. A discussão, admite, passa sobretudo por si e por Matt Hauser, a quem roubou o título mundial, apesar de ter sido batido na finalíssima.
Ainda assim, não deixa de fora nomes como Alex Yee e Hayden Wilde. O rival que o faz crescer
Matt Hauser é, sem dúvida, o rival que mais desafia Vasco Vilaça a elevar o próprio nível.
«Tem sido uma luta muito gira. Embora me faça a vida muito mais difícil, gosto muito de ter um rival tão grande, porque, de certa forma, ele dá-me a motivação para continuar a trabalhar e, de cada vez que ele me ganha, dá-me fome para trabalhar ainda mais e ser ainda mais forte. Ele faz com que eu seja melhor todos os dias.
E eu gosto bastante disso», confessa. Trata-se de uma rivalidade saudável, que, no entanto, já viveu melhores dias. Na prova de Pontevedra, houve uma atitude do australiano que não agradou a Vasco Vilaça. Do pânico no pontão ao título mundial em Pontevedra
Vasco Vilaça chegou a Pontevedra depois de ter vencido duas etapas e terminado outras três no segundo lugar.
As contas eram simples: bastava terminar entre os cinco primeiros para se sagrar campeão do mundo. Caso alguma coisa corresse mal, o título mantinha-se com o grande «rival». O início foi complicado. Na primeira volta da natação, chegou a estar a 22 segundos da frente, numa disciplina que admite ser aquela onde sente «mais dificuldades». «Oh, espera aí!», recorda, com humor, ao lembrar o momento em que percebeu a distância para os primeiros. Ainda antes de conseguir recuperar terreno, surgiu outro problema.
O pontão cedeu precisamente quando os atletas se preparavam para sair, provocando alguns segundos de confusão junto à zona de transição. «Parecíamos animais a afogarem-se, todos a puxarem uns pelos outros, a tentar sair dali. Entrámos quase em pânico.
Felizmente, estava numa das extremas e consegui sair pelo lado», descreve ao recordar o cenário. O susto não mudou o plano. O grupo da frente continuava ao alcance e Vasco voltou ao que sabia que tinha de fazer.
«Continua a lutar porque ainda há tempo para mudar muita coisa», repetia para si próprio. Aos poucos, a desvantagem desapareceu. Na bicicleta, recuperou terreno e entrou na corrida junto dos atletas que discutiam a vitória. A certa altura, já não havia dúvidas: o título mundial estava garantido, restava apenas saber em que lugar terminaria a prova. Mas nem aí a emoção se sobrepôs à razão.
Não houve um «vou ser campeão do mundo». Houve antes uma preocupação com o que ainda faltava fazer: «Ok, está tudo certo, o plano era este». Com três quilómetros pela frente, Vasco começou a preparar-se mentalmente para o final.
Como estava a respirar? Precisava de água? Como iria abordar o sprint? Todos esses pequenos detalhes entravam nas contas. O sprint que deixou um sabor agridoce
Vasco entrou na reta final na frente. Hauser ultrapassou-o na curva e nos últimos metros deslocou-se para a trajetória do português bloqueando a sua tentativa de ultrapassagem. Os dois chegaram à meta com o mesmo tempo, 1:39:31, mas Hauser venceu a prova pelo photo finish.
Vasco não escondeu o incómodo com a forma como o sprint terminou. «Realmente tive ali um minuto, se calhar, depois da prova, em que estava chateado», admitiu. Mas a irritação durou pouco. Ao olhar para Ricardo Batista, que terminara a prova pouco depois dele, e para o treinador, em lágrimas, percebeu a dimensão do que acabara de conquistar.
«Acabei de ser campeão do mundo, que é que isto interessa? Quero é celebrar o lado positivo das coisas. Não vale a pena focar numa coisa negativa porque eu não tenho nada a ver com isso»
A forma contida como viveu aquele momento não significa que não tenha sentido a emoção. Vasco explica que, enquanto atleta, aprendeu a guardar muito do que sente.
«Gosto de manter as minhas emoções. Como atleta, aprendi que, por causa dos nervos e de tudo o que acontece para a prova, ter ali uma poker face e ver as emoções todas assim…
está tudo dentro de mim e não vem para fora»
«Lembro-me de pensar: “Quero estar sozinho.” Queria ter ali um momento sozinho, comigo e com a minha família, para ter espaço, para aproveitar as emoções e tudo o que estava a passar.»
Um pódio que se partilha
Vasco Vilaça venceu, mas não foi o único português a deixar Pontevedra com razões para celebrar. Ricardo Batista conquistou o bronze mundial e, na finalíssima, terminou no quarto lugar. João Nuno Batista e Miguel Tiago Silva acabaram a prova em 11.º e 19.º, respetivamente. Portugal colocou, assim, dois atletas no pódio do Campeonato do Mundo de Triatlo.
Mas o que diz isto sobre o atual momento do triatlo nacional? Para Vasco é simples: «Os resultados falam por si.
Estamos num momento incrível. Mostra de onde nós viemos.». Todos cresceram juntos e são quase como uma família. As conquistas de uns são as de outros e o novo campeão do mundo que o diga. «O momento tornou-se muito mais especial por ter o Ricardo ali, tão feliz pelo que tinha acabado de fazer. Vê-lo a ele tão feliz, isso também me fez feliz»
«Eu só pensava que estava a partilhar o momento mais importante da minha carreira com o momento, até agora, também mais importante da carreira dele», acrescentou.
No fundo, é esta humildade que molda o atleta, orgulhoso por partilhar o caminho com quem tanto gosta de ver vencer. O mesmo Vasco, agora campeão do mundo
Não há uma distinção clara entre o atleta e a pessoa. Pelo menos, não para Vasco Vilaça. O triatlo faz parte da sua vida, mas não criou uma personagem diferente daquela que existe fora das provas. Continua a ser o mesmo rapaz descontraído, que gosta de brincar e que, apesar da atenção pontual que recebe, prefere passar despercebido.
«É giro estar, se calhar, no centro das atenções neste momento, mas eu gosto muito de passar despercebido quando estou na minha vida normal.»
Depois do título mundial, em Pontevedra, procurou precisamente isso. No dia seguinte à prova e à festa, saiu sozinho para dar um passeio «normal» pela cidade, no meio de pessoas que não o conheciam. «Pude estar só comigo mesmo, sem precisar de estar a pensar se estou a sorrir bem para a câmara, ou no que é que estou a dizer.»
Ser campeão do mundo passou a fazer parte da sua história, mas não é isso que o define enquanto pessoa.
O título é uma conquista que passará a carregar consigo, não um cartão de visita que sinta necessidade de apresentar. «Se eu chego a um sítio e as pessoas não me conhecem, também não sinto necessidade de lhes contar que sou o campeão do mundo de triatlo. Sou Vasco Vilaça, o meu trabalho é ser triatleta, e quero conhecer as pessoas. Mais do que contar-lhes quem é que eu sou, se calhar quero conhecer as pessoas que estão comigo»
Do rapaz que via Vanessa ao sonho olímpico
A faltarem ainda dois anos, o próximo capítulo já tem nome: Los Angeles 2028 é o «objetivo principal». Mas, para Vasco Vilaça, há uma diferença fundamental na forma como olha para o futuro. O atleta faz questão de sublinhar que aquilo que o guia são objetivos, e não sonhos. «Porque os sonhos são aquilo que em crianças víamos como algo que ainda não era tangível.
E as coisas que agora estou a alcançar são possíveis e estão nas minhas mãos», esclarece. É por isso que a medalha olímpica já não é apenas uma ambição distante. Depois do quinto lugar em Paris, em 2024, Vasco coloca-a no horizonte, consciente, ainda assim, de que os Jogos têm uma dificuldade diferente.
«Nos Jogos Olímpicos há uma prova, um dia, duas horas, tudo pode acontecer.»
Ainda faltam dois anos e o próprio sabe que muita coisa pode mudar até Los Angeles. Mas, neste momento, sente que está onde precisa de estar. «Estou na elite mundial, estou entre os melhores do mundo.
Desde que as coisas corram bem, ainda faltam dois anos, muita coisa pode mudar, mas é lá que eu devia estar»
«Quanto mais nos aproximamos, mais é um objetivo real», frisa. Uma mensagem aos pequenos Vascos que andam por aí
E, quanto mais esse objetivo se aproxima, mais sentido faz voltar ao início. Ao rapaz que via Vanessa Fernandes competir e que encontrou nela a inspiração para começar no triatlo. Quiçá numa próxima geração não poderá ele ter o mesmo impacto. A verdade é que o caminho feito foi o correto. Houvesse a possibilidade de Vasco falar com o pequeno menino que tinha medo de água e imaginava encontrar tubarões e crocodilos, este diria-lhe para fazer tudo da mesma maneira. «Tudo correu bem e tudo levou-me ao sítio certo.
Cometi muitos erros ao longo da minha carreira e da minha vida enquanto atleta, mas também acho que esses erros fazem parte. É assim que se aprende»
Mais do que ficar preso ao que já passou, Vasco prefere olhar para quem está agora a começar, e é a esses meninos pequeninos a quem deixa uma mensagem. «Aproveitem tudo à volta. Podem ser competitivos, mas não sejam competitivos para além da prova em si.
Na prova estão lá para ganhar. Depois da prova, respeitem as pessoas à vossa volta e façam amizades. Porque são essas amizades, como já falei tantas vezes, que dão valor àquilo que estamos a fazer e tornam o dia a dia muito mais fácil.»
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